usina de ideias

jorge rocha escrevendo um blog hermético e fechado para um gueto
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Segunda-feira, Agosto 04, 2003
 
Uma provável conversa
Este blog teve acesso a um trecho bastante representativo de uma conversa a respeito da vida literária tupiniquim, travada pelo icq. De um lado, estava o temível Crooner Dissidente, andarilho das quebradas, cultivando olheiras e retroalimentando a gastrite. Do outro, a Escritora-Sem-Sombra-Que-Prefere-Não-Se-Identificar, na gangorra das publicações no Brasil. Ambas as partes permitiram que esse diálogo revelador fosse publicado. Tudo por conta de uma negociação escusa, é claro.


Crooner 12:21 infelizmente, nao irei ao teu lançamento, minha cara ...
grana curta e agenda lotada ...

Escritora 12:22 ah, no problem
não vai ter mais lançamento
o livro vai atrasar, nem tem previsão de quando
ficará pronto, se é que algum dia ficará

Crooner 12:22 a editora surtou ?

Escritora 12:22 no $

Crooner 12:23 heh ... e quem nao ta assim ?

Crooner 12:23 eu desisti de publicar os meus

Crooner 12:25 eu cansei. to passando por fase muito ruim. e to
deixando de lado muitas coisas. ser publicado eh
uma delas.

Escritora 12:28 nem me fale
é um exercício de paciência
pra quem ia publicar este ano,... não
duvido se não conseguir

Crooner 12:29 eqto isso, tanto ****** sendo publicado ... isso eh
o q fode minha sacrossanta paciencia

Escritora 12:31 os ****** tb são filhos de deus, tadinhos

Crooner 12:32 poderiam estar no ceu, entao ... heh

Crooner 12:34 da um bom conto:
"os ******** merecem o céu ?"

Crooner 12:37 posso transcrever essa nossa conversa ?

Escritora 12:39 claro que não! daí é que nunca mais me publicam

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Terça-feira, Julho 22, 2003
 
[esclarecimento]
Os seis textos seguintes foram publicados no blog coletivo urgente ! , em preto e branco. Enquanto não temos atualização, espero que se divirtam com esse revival

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Luz, câmera e ação para o cinema nacional
O secretário executivo do Ministério da Cultura, Juca Ferreira, em recente entrevista ao jornal O Globo, pontuou que, no atual governo, há uma preocupação com idéias de diversidade cultural, inserção do Brasil no mundo e olhar antropológico sobre a cultura brasileira. Posso entender que há uma forte tendência a reavaliar as políticas de incentivo à produção cinematográfica tupiniquim, uma vez que o cinema é uma das formas mais abrangentes de exercício dos fatores citados pelo secretário. Para ele e para o ministro Gilberto Gil — assim como para os demais participantes do Ministério — O Cinema da Retomada – depoimentos de 90 cineastas dos anos 90, de Lúcia Nagib, lançado em 2002 pela Editora 34, tem que se tornar livro de cabeceira. Com opiniões abalizadas de quem enfrentou altos e baixos com a arte de fazer história na tela grande, O Cinema da Retomada traça um panorama elucidativo, concentrando-se em uma década, mas sem deixar de explicitar um histórico do cinema nacional.

Análise crítica sobre incentivos
Este livro é um documento histórico e político. Em tempos de sucesso de Cidade de Deus, entender os mecanismos de funcionamento do cinema brasileiro torna-se mais do que essencial. Pode-se dizer que é imprescindível, para evitar que corramos o risco de cair na idéia de que tudo se tornou mais fácil agora para que todo filme nacional emplaque e tenha apoio incondicional. Este “sensação de glamour” não é nova e O Cinema da Retomada tem como um dos maiores méritos justamente explicitar estes meandros, nas palavras de quem lida com arte e política. Histórias de experiências que não alcançaram o efeito desejado, conquistas, críticas e propostas – principalmente quando se trata da Lei do Audiovisual – permeiam todo o livro. Dessa forma, as mais de 500 páginas de O Cinema da Retomada tornam-se uma leitura prazerosa, onde os entrevistados falam – cunhando um painel amplo – sobre suas carreiras, filmografia e relação com as fases do cinema brasileiro e as cinematografias estrangeiras.

Combustível
Lúcia Nagib

O livro foi o resultado do trabalho desta professora de História e Teoria do Cinema na Unicamp em um projeto do Centro de Estudos de Cinema, no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Quem aprecia cinema pode e deve conferir o quanto são certeiras as impressões apuradas pela equipe de Lúcia Nagib – composta por 14 pesquisadores –, assistindo e procurando conhecer a história de filmes como Desmundo, de Alain Fresnot, Separações, de Domingos Oliveira e Houve uma vez dois verões, de Jorge Furtado – que dão seus depoimentos neste livro – para citar apenas alguns exemplos simples e recentes.
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Consenso de Washington, go home !
Não minta para esta coluna. Qual foi o evento que o caro leitor acompanhou com mais intensidade no mês passado: o Fórum Social Mundial ou o Fórum Econômico Mundial ? Se, por um lado, já foi dito que o FSM pretende discutir o tal capitalismo humanizado – seja lá o que isso signifique –, não é difícil constatar que o receituário do Fórum de Davos permanece inalterado. Lá, entre uma e outra aparição da vice-diretora gerente do FMI, Anne Krueger, para ficarmos em um exemplo sintomático, reforçava-se de maneira absurda o quanto o Consenso de Washington ainda baixa o coturno por estes lados das Américas. O acordo pontual entre economistas e políticos americanos e da América Latina nos aspectos macroeconômicos – valha o termo – é avesso à mudanças significativas, atendo-se ao seus dez mandamentos cunhados em novembro de 1989, sob a benção do Institute for International Economics.

Resolver os problemas do mundo é coisa de vagabundo
Dedo indicador em riste aponta diretamente para o economista John Williamson. Queridinho de vários economistas espalhados pelo mundo – inclusive os da PUC-RJ que fizeram parte do governo FHC –, ele foi o criador do termo. Williamson sintetizou o caminho para o paraíso econômico neoliberal. É tudo muito simples: basta haver controle do déficit fiscal, cortes de gastos públicos, reforma tributária, administração das taxas de juros e administração da taxa de câmbio. Sem esquecer a política comercial de abertura do mercado e liberação de importações, além de liberdade para entrada de investimentos externos. E não pode faltar a privatização das empresas estatais e desregulação da economia juntamente com eliminação de leis trabalhistas. E mais garantia de direitos de propriedade. A Argentina é um exemplo de país de seguiu à risca a cartilha e o Brasil não dá mostras de fazer muito diferente.

Combustível
Os ativistas estão elaborando

Perdeu-se a conta de quantos livros voltados para discutir as mazelas do mundo foram lançados no FSM, como Contendo a Democracia, de Noam Chomsky. Vale destacar ainda a presença de Tariq Ali, autor de Confronto de Fundamentalismos e Naomi Klein, autora de Sem Logo, que terá o livro Cercas e janelas lançado no Brasil em março. Apesar de serem temas fortes, somente são discutidos com essa veemência porque são pontuais e estão na crista da onda. Há a carência de produção voltada para destrinchar o Consenso de Washington, caso queiramos mesmo entender a que pontos chegamos.
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Que maldade vil é esta ?
Com a coluna de hoje, estou tentando me redimir. Acabei de ler Angu de Sangue, livro de Marcelino Freire, e ainda tento me recuperar do baque. Tento me redimir não do baque em si, mas de não ter lido este livro antes, precisamente em 2000, ano em que a Ateliê Editorial o lançou. Mas isso é um mero detalhe: o que interessa é que a literatura que Marcelino Freire pratica é incômoda. E eu agradeço por isso. Como ele mesmo parafraseia Ariano Suassuna na abertura do livro: tem que se ouvir “cada palavra como um tiro ou uma facada”. E é justo esse efeito que o caro escritor aqui resenhado provoca, com uma facilidade de deixar pasmo qualquer incrédulo de plantão. A crueza das narrativas – e o apuro com que a oralidade crava as unhas em cada página – mostram um universo de desilusões cotidianas, em uma intensidade que nós acabamos deixando de registrar no cotidiano. E que ele ajuda a desvelar novamente.

Arapuca armada
Com esse livro em mãos, você há de concordar comigo: Marcelino Freire é um cara ardiloso. Como se não fosse suficiente disparar jabs textuais na cara dos desavisados, ele ainda se cercou de caros amigos para não poupar o leitor – este coitado – das expiações que atormentam os escritores. O projeto gráfico – a cargo de Silvana Zandomeni, com fotos de Jobalo; aplausos para eles – é uma mostra de trabalho primoroso; encaixe perfeito entre imagem e texto. Não há separação, não há pausa para respirar entre um e outro. Uma pequena obra-prima ao alcance das mãos e dos olhos. Mas, lá vai um aviso de amigo (?): não tente encarar Angu de Sangue com o estômago fraco. Pois é justamente por aí que ele começa a te atacar. É sintomático: depois, o alvo é sua consciência. Não se pode esperar menos de um livro que torce entranhas – de quem ? você vai saber ... – com seus personagens que nos parecem familiares.

Combustível
Marcelino Freire

Típica figura que executa – muito bem – mil idéias ao mesmo tempo. Essa talvez seja uma boa descrição da personalidade de Marcelino Freire. Além de ter idealizado a Coleção Cinco Minutinhos – verdadeira reunião de textos de fôlego – e co-editar a revista PS:SP, ele ainda encontra tempo para escrever em seu blog, abrindo espaço também para outros autores. E, como se não bastasse: para maio, está previsto o lançamento de BaléRalé, parceria da Ateliê Editorial e da eraOdito editora. Um verdadeiro adepto da máxima “o império se expande”.

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Quando os universitários estão fora de foco
Data dos anos 60 a idéia de criar no Brasil um canal de televisão universitária. Com a Lei do Cabo, conseguiu-se que as operadoras disponibilizassem – terrível palavra – canais de acesso comunitário, educativo, universitário e legislativo. Em Campos, existe a UniTV, que transmite no canal 17 da ViaCabo TV. No ar a cerca de 7 meses, a proposta da UniTV era reunir 13 instituições de ensino superior – valha o termo – de Campos, em uma espécie de consórcio para gerenciar o canal. Todas estas se comprometeram a trabalhar em conjunto, mas temos hoje um quadro bastante diferente do ideal. Apenas a Faculdade de Filosofia de Campos – que conta com o curso de Jornalismo –, Cefet, Uenf e Faculdade de Medicina “sustentam” o canal. Assim, estamos mesmo longe de possuir um canal universitário, uma “soma televisiva” de produção intelectual de uma cidade que já é considera como universitária.

Financiamento na telinha
O suporte dado por estas instituições vai desde empréstimo de equipamento até verba destinada à execução de projetos. E assim como no caso das TVs públicas, falar em apoio publicitário para as TVs universitárias sempre faz com que algumas pessoas torçam o nariz. Mas como deixar o assunto de lado quando a falta de maior participação das universidades – estas que deveriam ser as maiores interessadas – é evidente ? Segundo fontes, a UniTV está se mantendo com menos de R$ 1.500 mensais, para formatar uma grade de programação que cumpra o horário estipulado de transmissão – a saber, das 8 às 22h. Mas, para contornar situações como essa, a TV já está buscando maiores recursos para financiar a execução de projetos. E, também para melhor organizar esta tentativa de virar a mesa, foi criado um Núcleo de Jornalismo. Cabe a pergunta: o que o futuro reserva para a UniTV ?

Combustível
TVs Universitárias

Assim como o jornal laboratório, a TV universitária é um espaço para que os futuros comunicadores sociais possam experimentar formas de linguagem e melhor forjar sua identidade profissional. A experiência infelizmente comprova que, depois de formados e já colocados em campo, podem dizer “tchau” para as experimentações. Cobrar funcionamento e eficácia de produtos laboratoriais como estes – que nenhum dos urgentistas ! aqui presentes teve contato no tempo em que cursaram a Faculdade de Filosofia – é uma forma de ajudar a dar novas luzes, novas facetas ao exercício desta praga chamada Jornalismo.
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Despudor de língua
Você acha que o beijo pode ser o marco, no toque, de toda e qualquer linha tênue entre sensualidade e obscenidade ? Se uma pergunta deste tipo pode ficar martelando a sua cabeça, então tome fôlego e se prepare para assistir a “O Beijo”, de Andréa del Fuego. O vídeo da cara amiga chegou em minhas mãos esta semana – após uma série de desencontros típicos dos paulistas – e finalmente pude ver esta demonstração da força primal feminina. Grrrrl power ? Mas nem. Se Alice descobriu um universo paralelo através do espelho, a atriz Rejane Arruda encarna na telinha a possibilidade de fazer o contrário. Simples assim. Em “O Beijo” – de 1996, salvo engano –, Andréa e Rejane detalham, sem palavras, que esta outra dimensão, este espaço de descoberta e entrega, ambas despudoradas por natureza, faz mais do que portar reflexo; trata-se de um catalisador sensorial. E isso em pouco mais de 3 minutos de vídeo.

I wanna be your lips [like sugar]
impossível deixar de se encantar com a sensualidade que Rejane Arruda exibe neste vídeo. Com sensibilidade à toda, mas sem que se disperse ou escape do controle, o trabalho da atriz é um encaixe perfeito para a proposta de Andréa Del Fuego. Como bem evidencia a troca de beijos apaixonados de Rejane com o espelho – seu duplo, seu eu –, ao som de “I wanna be your dog”, dos Stooges. Repetindo a parceira com a atriz, Andréa Del Fuego realizou também o vídeo “Ela” – aliás, dos três vídeos, há ainda “Morro da Garça”; tive a oportunidade de assistir apenas a “O Beijo”. Com essa parceria produtiva, é possível recorrer à idéia da relação criadora/criatura ? Não, reles mortal; é mais do que isso. Falamos de cumplicidade feminina aplicada para a arte. Ainda bem !

Combustível
Andréa Del Fuego

Além de realizar pequenas obras fascinantes como “O Beijo”, Andréa Del Fuego também embarca em atividades literárias. Na revista Falaê !, ela é a responsável pela seção F! Mulher e assina a coluna Crônicas da Mulher Casada. Não contente com isso, também escreve uma coluna sobre sexo e afins – não me perguntem o que são esses afins – no Bol, chamada Centrífuga e é colaboradora da revista [mão única ?]. Para relaxar, aguarda a publicação de contos em uma coletânea sobre o universo feminino e ainda tem um livro pronto para ser lançado, possivelmente após a Bienal do Livro do Rio de Janeiro.
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Le Egòisme: literatura de caros amigos
Estejam avisados: a coluna de hoje é uma viagem ao centro do ego. Sou um escritor disfarçado de jornalista. Mas não sei exatamente onde começa um e termina outro. Caso clássico: ando meio Dr. Jekkyl e Mr. Hyde da escrita nos últimos tempos. O jornalismo me permite entrar em contato com escritores que admiro e tenho especial apreço; a troca de idéias com eles me motiva a continuar escrevendo meus contos. Amálgama: eu tenho a felicidade de poder contar com alguns destes escritores como colaboradores. Agradeço sempre a confiança – e ainda acho que é pouco. E é por estar nesse universo – paralelo ? – que acompanho com grande satisfação as notícias de lançamentos de livros de excelentes escritores para 2003. E isso me faz reafirmar: Geração 90 – manuscritos de computador, seleção de contistas feita por Nelson de Oliveira, é um marco de mais e melhores conquistas territoriais.

Cooperação midiática
Vale dizer que Hotel Hell, blog mantido por Joca Reiners Terron, vai ganhar páginas impressas pela Livros do Mal e se espalhar pelas livrarias a partir de maio. Aliás, bastante propício, uma vez que é em maio que vai acontecer a Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Amigas e amigos estimados também irão lançar seus livros nessa época. O que, em certa escala, me faz constatar – pela pricolhésima vez – que a produção literária em terras brasilis anda com dentes cada vez mais afiados. Exemplos como a revista Coyote – que, terrível simetria, acabei conhecendo no mesmo dia em que o terceiro número era diagramado – também me convencem disso. Da mesma forma como outros exemplos – muitos; sem condições de serem citados todos apenas nessa coluna – certificam que os nós de comunicação e articulação entre esse pessoal que se mete a escrever estão cada vez mais apertados.

Combustível
Jorge Cardoso e João Filho

No meio de tantas considerações sobre escritores, quero destacar dois, que conheci recentemente. João Filho é um baiano aditivado, que usa de uma linguagem atravessada e rascante, cravejada de cortes e gírias, para atordoar os leitores – esses coitados, como não me canso de repetir. Já Jorge Cardoso é uma figura cheia de histórias fantásticas – e não estou me referindo apenas aos seus contos, mas sim a sua própria vida; chega a parecer uma armação bem engendrada ... Interessou ? Então, dê uma chegada em FakerFakir e confira alguns textos destes dois malacos. E tente ser a mesma pessoa depois disso.

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Terça-feira, Julho 08, 2003
 
Jazzy fantasy
Há pessoas que escrevem como se espancassem as letras, sovando-as até que, com hematomas aqui e acolá, tomem a forma ou função desejada. Há aqueles que preferem cultivar as palavras, dando-lhes um ar mais – valha o termo – edificante. Mara Coradello está longe, bem longe destes casos. É um meio termo, sim, mas isso não significa que esta escritora esteja propensa a ficar em cima do muro. Em O colecionador de segundos, seu livro de estréia, lançado pela 7Letras, ela apresenta uma escrita jazzy, naquele tom entre o amargo e o doce – algo deliberadamente calculado e executado com resultados favoráveis -, com influências de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu. Talvez seja esta uma boa definição para a produção textual desta escritora: Mara Coradello deve ser lida ao som de Miles Davis, Billie Holiday ou Chet Baker. As letras, nas mãos desta escritora, soam como melodias. E assim devem ser tratadas.

Estratégias e suavidades
Não deixe a capa deste livro te enganar; ela é bem tosca, ao contrário do talento de Mara Coradello em trabalhar temas que são caros a quem tem um espírito jazzy: solidão, amor, tristeza, enfim, essas coisinhas. Tudo isso pontuado por uma ironia que, de tão aguda, está incutida em pequenos detalhes. Contos como Acepipe, Laticínios e Trillum – um dos melhores deste livro – mostram muito bem essa pontada causada por um vacilo entre a ternura e angústia. Um aviso para aqueles que teimam em classificar Mara Coradello no esquemóide de literatura pop (sim, ainda há quem saque este termo ...): a escritora – que teima em dizer que faz literatura de mulherzinha; tsk, tsk, tsk – tem substância. Entender e reconhecer as nuances do imaginário desta escritora capixaba faz toda a diferença. Ter vontade de colecionar as pistas espalhadas segundo a segundo já é um bom começo.

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Coleção Rocinante

Mara Coradello faz parte de uma leva de escritores taxados como novos, que tanta confusão tem feito na cabeça dos leitores – estes pobres coitados desavisados. A Coleção Rocinante, excelente iniciativa da editora carioca 7Letras, joga mais um tanto de lenha nesta fogueira – das vaidades ? –, e tal ação pode acabar explicitando as diferenças entre os escritores do – ugh – pós-90. E aí estão, nessa coleção, publicados O mentiroso, de Tony Monti, Pressentimento do umbigo, de Leandro Salgueirinho, e Das coisas esquecidas atrás da estante, o segundo livro de Clarah Averbuck, para atestar este fato.
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De volta para o futuro
Estou voltando hoje a este blog, depois de muito relutar. Considerava que sua função - registrar as colunas que publiquei no jornal Folha da Manh? - estava encerrada. Com o fim da coluna no jornal, não vi motivos para dar continuidade a esta produção. Tentei retomá-la no urgente !, mas não funcionou a contento. Eu sentia a necessidade de escrever algo neste mesmo formato, que muito me agrada. Agora, espero poder seguir não tão tranquilamente, a partir do ponto em que parei.
Sejam bem-vindos. Mais uma vez.
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Sábado, Setembro 28, 2002
 
[NO MORE]
a coluna usina de idéias foi cancelada na folha da manhã. o post anterior é da última coluna publicada. o mesmo aconteceu com a coluna provocações, do jornalista vitor menezes, cujo acervo está armazenado aqui. a partir de agora, este blog fica em animação suspensa, uma vez que foi criado para abrigar as colunas. obrigado aos leitores que, volta e meia, vinham assombrar este recanto.
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Quinta-feira, Setembro 26, 2002
 
A essência da comunicabilidade
O número 5 da revista Play — a melhor edição de todas até agora, sem sombra de dúvida — levanta uma discussão que há algum tempo tem martelado minha cabeça: qual será a formatação que daremos para a web até 2010 ? Projeção difícil de fazer ? Não mais. Se há dois anos, esta era uma tarefa que poucos se sentiam à vontade de dar cabo com inteligência e bom senso, hoje o panorama está um tanto quanto mudado. A despeito desta edição marcar a saída do editor Alexandre Matias — que havia dado o direcionamento menos voltado ao entretenimento eletrônico e mais centrado nas políticas de desenvolvimento —, fica a marca de que estamos começando a acertar a mão para trabalhar de maneira realmente interativa com esta mídia, fazendo associações abalizadas com teóricos das ciências linguísticas e cognitivas com maior desenvoltura. Prova de que o processo analítico lógico está dando mais um salto. E nós — brincando de Deus — estamos vendo que é bom.

Imersos e interativos
Uma das principais questões diz respeito ao modo como lidamos com as operações executadas no espaço digital imersivo. Isso me faz relembrar o conceito de ciberespaço de Margareth Wertheim — trabalho este que tem inúmeros pontos de contato com as teses de Steven Johnson — que este pode se transformar, tanto no Céu como no Inferno de Dante. Mas tal “dilema” é estimulante, fazendo com que se busque meios de promover realmente a interatividade — tão falada, mas pouco executada — nesta mídia. Trata-se de um trabalho de voltar a atenção novamente para a lógica idealizada por estudiosos como Wittgenstein, de modo a rever como a linguagem para a web — a interface, como define Johnson — vai além da representação por ícones e que tais, tornando-se mais embasada por certos “ramos” da Lingüística, trabalhando em conjunto para fortalecer este suporte midiático.

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Cibernéticos

Cerca de vinte anos depois de Wittgenstein firmar a idéia de que a lógica domina o mundo, que esta é sua essência, cientistas debruçaram-se a transpor conceitos lógicos para definir modos de linguagem e cognição assemelhados aos procedimentos neurais do ser humano. É também, conforme recorda Pierre Lévy, graças às pesquisas de Alan Turing, Claude Shannon, Herbrand e Post que se pode falar hoje, sobre elementos essenciais à web, como a Cultura da Interface, por exemplo.
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[APOCALIPSE TREMENS]
À minha passagem. Por becos, mocós, mafuás; avenidas, travessas, salões; casas de família e redutos de perversão. Andei por todas as ruas da cidade e fui percebido. Fechem os vidros dos carros. Tirem as crianças da sala. Ponham os velhos para dormir. Troquem os lençóis. Limpem as geladeiras. Passem cadeados nos portões. Dêem a descarga. Amarrem os cadarços. Chutem os cachorros do caminho; principalmente aqueles que são mais traiçoeiros pelo tempo nas ruas. Santíssima Trindade. Parem. Olhem. Escutem. Esperem o sinal abrir. Evitem as balas perdidas. Não se virem para trás. Façam suas orações. E, principalmente: joguem água e sal e anilina e benzoato de sódio e cal em todo e qualquer ser que respirar após minha andança por este pedaço de chão. Eu sou aquele que caminha. Em direção de espera em movimento. Sei que virá repentinamente: então posso dizer que já estou aguardando. O que eu quero ? Como último desejo ? Quero seu cheiro. E algumas lágrimas. Para o fim. Para onde eu caminho. Justamente para onde eu cami ...
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Quinta-feira, Setembro 19, 2002
 
Personalidades dissecadas sadicamente
Como bom apreciador de filmes de terror e que tais, por inúmeras vezes ouvi falar sobre os snuff movies, aqueles filmes pornôs ultra-trash, onde um dos “participantes”acaba sendo morto ou eviscerado. Há quem reze que se trata de lenda urbana. O que não é o caso de “Snuff movie – depois do fim do mundo”, livro de Marcos Fábio Katudjian lançado recentemente pela Editora Casa Amarela, que trata deste tema, perpassando a vida e o envolvimento — em planos diversos — de um casal que poderia ser considerado como improvável, se não fosse tão comum os desvios do destino. Katudjian arrisca e se sai bem — metaforicamente, obedecendo a instintos; uma das molas-mestras de seu primerio livro — ao trabalhar com uma trama que mexe com sexo — o que já é delicado por si só. É com perícia de roteirista que ele questiona níveis de fetiches e uma tensão constante — lembre-se que, por mais horrendo que possa parecer, o assunto snuff movie é tabu e este despertam, no mínimo, curiosidade mórbida.

Retalhando o subconsciente
Em certos momentos, a narrativa torna-se por demais comprida — especialmente aqueles que teimam em contar tintin por tintin a vida dos protagonistas antes de se conhecerem — e um tanto quanto morosa. Do mesmo modo que era o cotidiano do interiorano Fábio antes de se envolver com viajada e escolada Fernanda e seu modus vivendi, ocasião em que começa a se insinuar uma das — excelentes — reviravoltas deste livro. E, como leitores mais afoitos poderão considerar, Katudjian consegue costurar com precisão vidas tão diferentes, quando relata a participação dos personagens na produção dos filmes. Mas há um detalhe particular: o leitor pode acabar envolvido de tal forma, a ponto de começar, talvez sem perceber de imediato, a querer dimensionar até onde vão seus fetiches e que tais.

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Marcos Fábio Katudjian

Formado em Cinema pela USP, este escritor não faz a menor questão de esconder, com o trato dado à narrativa, que “Snuff movie”se trata também da base para um roteiro cinematográfico, que ele mesmo pretende dirigir. Em seu currículo há “Artigo 25” e “Ano Novo”, curta e média-metragem, respectivamente. A condução do enredo é realizada para proporcionar riqueza de detalhes, fazendo com Katudjian acerte a mão em cheio nos momentos mais escabrosos. E “Snuff movie” tem ainda um final justo — previsível não é exatamente o termo, por desmerecer a capacidade de Katudjian em contar uma história sobre conhecimento da natureza dita sombria do ser humano.
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Ciências como acidentes necessários
Envolvido com uma pesquisa — produtiva em um nível que não havia dimensionado — a respeito de Wittgenstein, cada vez mais uma pergunta martelava meus neurônios. Um questionamento que pode parecer batido, em primeira análise — ah, detratores ... —, mas se mostra pertinente para entender determinados papéis e suas produções. Como fazer a distinção necessária entre cientistas e filósofos das ciências, sem ferir egos e tratar um tema tão espinhoso com bom humor ? Pois uma explicação sensata está nas páginas de “A invenção das ciências”, de Isabelle Stengers, publicado pela Editora 34, na coleção Trans — que conta ainda com textos de Deleuze e Guattari, Paul Virilio, Pierre Lévy e outros mais. Stengers utiliza influências inegáveis dos filósofos das ciências Thomas Kuhn e Karl Popper para contrapor a produção filosófica à científica em seus prismas distintos, especificando as diversas esferas e concepções inseridas na vida social — uma cativante idéia-chave para um livro.

Papéis questionados
Orientada pelo que se convencionou chamar de “restrição leibziana”— segundo a qual a filosofia deve sempre buscar a diplomacia e não colocar estritamente em xeque conceitos pré-estabelecidos —, Isabelle Stengers questiona a definição de papéis de cientistas e filósofos das ciências. Para realizar tal tarefa, ela pontua questões relativas às ciências — sim, no plural mesmo, para poder incluir, com maior desenvoltura, até mesmo aquelas que se supostamente se “apóiam”, mal comparando, em idéias que remetem a um “poderio”análogo ao do além-homem nietzschiano. Dessa forma, Stengers nos leva, com fino humor e inteligência mordaz — mais dois traços que prendem a atenção do leitor —, a compreender que as ciências modernas não se baseiam em razões internas e/ou abstratas.

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Isabelle Stengers

Doutora em Filosofia e professora da Universidade Livre de Bruxelas, Stengers, recorrendo a Bruno Latour, Deleuze e Guattari, tem como um dos maiores méritos deste livro, a comprovação da experiência — baseada na inserção na sociedade —, que coloca a produção de ambos os lados à prova e validam seu “funcionamento”. Em seu currículo, além da publicação de livros como “Entre o tempo e a eternidade”, em co-autoria com Ilyia Prigogine, prêmio Nobel de Química, há ainda o prêmio de Filosofia da Academia Francesa, recebido em 1993.
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Quinta-feira, Setembro 05, 2002
 
Malditas (?) engrenagens
Não deixa de ser um tanto quanto engraçada essa tal de terrível simetria que, volta e meia, ataca a cada um de nós. Em um momento em que reestudo minha relação com o jornalismo, cai em minhas mãos a revista Transmetropolitan, parceria de Warren Ellis com Darrick Robertson. Esta HQ — que foi emprestada pelo caro amigo Rodrigo Manhães, aficcionado por quadrinhos e criador do sítio Tímpano — conta as histórias de Spider Jerusalém, jornalista que volta à ativa depois de passar um tempo recluso, fugindo do sucesso repentino obtido com um livro político. O mundo que Jerusalém encontra, depois de cinco anos nas montanhas, não mudou muito: não se deixa apodrecer ou degradar. Porque não vale a pena; é preferível, para este tipo de mundo, continuar sugando a força de milhares de culturas, tanto as existentes, quanto as que surgem “do nada” a cada dia. E como lidar com isso sem recorrer à doses de ironia e até mesmo de ceticismo ?

Acumulando raiva e rancor

Politicamente incorreto até o talo e nada agradável, Spider Jerusalém é a encarnação do jornalismo malaco, com um tanto de arrogância e que se mete lá dentro dos acontecimentos para poder escrever. Sintetizando ao máximo — e correndo o risco de ser grosseiro até —, pode-se dizer que se trata de colocar Hunter Thompson, o pai do jornalismo gonzo, em um contexto futurista, com a mesma degeneração social que presenciamos hoje nas grandes cidades. Ele sabe que sobreviver não basta, tampouco é uma alternativa que cause conforto; é preciso sempre sobressair-se. O que, diga-se de passagem, ele sabe fazer de melhor, destilando um senso de humor negro e canalizando um tanto de ódio — repito: a raiva vai nos salvar — pelas ruas repletas de maldições e esperanças, às voltas lá com seus aditivos para estimular o cérebro. Me faz lembrar de algumas pessoas que eu conheço.

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Warren Ellis

O roteirista mais mal-humorado do mundo, que acaba sempre por fazer jus a fama, rendeu-se também ao universo dos blogs, taxando o seu de Die, Puny Humans (Morram, míseros humanos). No blog, Elis canaliza sua ironia bruta em posts críticos, mostrando um tanto da mediocridade do mundo. Responsável por séries como Authority e Planetary, este inglês é uma prova do quanto não confiar em pessoas agradáveis pode ser produtivo. Que o diga Ruínas, sua primeira minissérie a ser aclamada, onde mostrava um mundo onde tradicionais heróis sendo assassinados ou contraindo doenças.
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